Homogenia da comunicação radiofônica
Em 26 de novembro de 2024, foi noticiado pelo periódico A Gazeta, que Romildo Lima e sua esposa Ângela, representantes do Grupo 12 de comunicação, compraram a Rádio Rio Negrinho, que passou a se chamar Rio Negrinho FM. Ocorre que essa pessoa jurídica já é dona da Rádio Vitrine, também sediada em Rio Negrinho (SC). […]
Por Cleverson Israel 17 min de leitura
Em 26 de novembro de 2024, foi noticiado pelo periódico A Gazeta, que Romildo Lima e sua esposa Ângela, representantes do Grupo 12 de comunicação, compraram a Rádio Rio Negrinho, que passou a se chamar Rio Negrinho FM. Ocorre que essa pessoa jurídica já é dona da Rádio Vitrine, também sediada em Rio Negrinho (SC). Não é o fim do mundo, mas quero usar este exemplo para fazer uma reflexão com o amável leitor. Das muitas atividades humanas, sociais por definição, na medida em que procedem do protagonismo antrópico, talvez a comunicação seja a mais social dentre todas. A linguagem faz com que difiramos de outros modos de ser e estar no mundo. A mídia não só nos deixa informados, mas conforma a nossa própria personalidade, o nosso caráter, impacta nosso sistema de crenças. Karl Marx explica que o modo de produção capitalista está baseado na propriedade privada dos meios de produção. Contudo, essa produção material é amparada pela superestrutura, um campo ideológico legitimador, em que as mídias desempenham suas funções. Dito isto, esclareço que o que pretendo pontuar, é que os meios de produção da informação e da notícia também estão concentrados nas sociedades capitalistas. A democracia não vive sem imprensa. O que assinala a democracia é o concurso de discursos diferentes e, para ser bem exato, conflitantes. A monopolização da comunicação radiofônica, regional ou municipal, pode redundar na neutralização de vozes destoantes. A verdade emerge das muitas opiniões. Sufocando-se opiniões contrárias, é o ouvinte que padece pela fragmentação da notícia, o modo como ela é apresentada e interpretada. A monopolização dos meios de produção da informação é a condição sine qua non para manipular a compreensão de mundo e o viés político daquele a quem a informação é engendrada e orientada. A questão que bate à porta de nossa consciência é: empreendedorismo ou dominação? Essa é a contradição da sociedade burguesa: ela leciona que a concorrência é o princípio pelo qual se alcança eficiência e o preço justo, mas, no final das contas, é a própria concorrência que morre ao despontar do grande vencedor do processo concorrencial, um monopolizador de carteirinha. A ausência de pluralidade é sempre má. O cristianismo é, a meu ver, a melhor coisa do mundo. Entretanto, antes do advento da sociedade tecnológica, a Igreja controlava todo discurso, e isso se mostrou danoso em uma série de aspectos. Outros exemplos de monodiscursividade foram e são as sociedades socialistas totalitárias. Não é fácil ligar o rádio e ouvir propaganda do governo ao longo de 24 horas diárias. A título de menção, e fazendo uma interseção com um tema atual e transversal, Benjamin Netanyahu mandou assassinar dezenas de jornalistas, fechou o Al Jazeera, e proibiu qualquer órgão público ou funcionário conceder entrevistas ao Haaretz. O Haaretz é o jornal israelense mais antigo. O único que ainda não cedeu ao mais absoluto alinhamento ao governo. Pilatos já havia perguntado: “Que é a verdade?”. Não é nada fácil responder a esta pergunta. Sem embargo, em Provérbios está escrito que “a sabedoria está na multidão de conselhos”. Quem é advogado, que milita na judicialização de demandas, é mais do que sabedor da valia epistemológica das narrativas que instruem o feito. Uma tecla só não faz música. Os órgãos de comunicação ainda precisam ser vistos como empregadores. A monopolização de empresas de comunicação força o piso salarial dos profissionais da área para baixo. E profissionais mal remunerados resultará numa comunicação acrítica e de má qualidade. O achatamento salarial gera ausência de profissionalismo. O poder de barganha das empresas de comunicação cresce na razão direta da concentração dos canais pelos quais flui a informação. O empobrecimento de ideias abarca a fragilização do ideário político partidário, essencial ao bom funcionamento da democracia. As rádios comunitárias devem sua existência ao entendimento de que é preciso fazer uma “reforma agrária da atmosfera irradiante”. Antes que entidades beneficentes pudessem ser a voz da comunidade, a comunicação era completamente dominada por magnatas, pois a outorga era entregue ao licitante cujo valor do lance transcendia o do concorrente, fazendo com que a linha de corte fosse o tamanho do bolso do cidadão. A comunicação, no Brasil, pode ser estatal, privada ou comunitária. E este tripé, por si só, já sinaliza uma inteligência política e jurídica. Com efeito, nunca é demais zelar para que não nos tornemos títeres nas mãos de empresários da comunicação, mormente preocupados com faturamento e influência política. Não é um ataque, apenas uma reflexão. Luz!