Os capitalistas iliberais ianques
Deportação em massa de imigrantes é marca da desinteligência do modo capitalista de produção
Por Cleverson Israel 18 min de leitura
Dias atrás, o historiador de cotidianos, Mariano Soltys, escreveu um genial artigo sobre as contradições ideológicas econômicas do governo norte-americano republicano, recém-notabilizado pela deportação em massa de imigrantes não legalizados. A crítica é de simples entendimento: a filosofia liberal advoga que o Estado não deve intervir na economia, deixando as relações econômicas ao dinâmico princípio da oferta e da procura. Sabemos que o capitalismo tem seu berço no pensamento fisiocrático, estruturado numa sociedade em que a atividade econômica principal foi a agricultura, depois temos o mercantilismo, que defendia entesouramento de metais valiosos, balança comercial vantajosa e Estado rico, para então sobrevir o liberalismo. Para o liberalismo, país rico é aquele em que os seus cidadãos são ricos, e não, exatamente, o Estado. Adam Smith defendia que a economia deve ser protagonizada pelos cidadãos, ficando ao Estado o encargo da fiscalização. Do ponto de vista estritamente econômico, a força de trabalho ou a mão de obra, é uma mercadoria como qualquer outra. Por conseguinte, quando é barrado o ingresso ou acesso da mão de obra ao mercado, o que se tem é o intervencionismo, que é o exato oposto do liberalismo. Trump, no entanto, praticou outras formas de intervencionismo, como a supertarifação de produtos importados de outros países, o que afetou, em cheio, o Brasil. Outro exemplo de intervenção, mas desta vez ela não parte do governo federal, é a proibição de softwares ou de sites de origem asiática. Em alguns Estados norte-americanos, usar Tik Tok ou DeepSeek, pode acarretar um processo-crime ao utente. O mercado não se regula sozinho? Qual o sentido da intervenção? Os imigrantes, grupo social que inventou a América do Norte, agora não são bem-vindos. Toda essa situação evidencia que o capitalismo não é uma doutrina, ele é uma prática. Certos discursos tomam ares de doutrina, filosofia ou ciência para serem aceitos. Mas um discurso que pode ser bom hoje, talvez, amanhã, não o seja mais. Quando interessava, aos endinheirados, fazer o Estado retroceder, foi colocado em circulação na noosfera a teoria da precipuidade da iniciativa privada. Momentaneamente, os endinheirados inflaram o Estado de poder, para rechaçar fisicamente do mercado os elementos tidos como nocivos. Houve um entendimento de que, no lugar do absolutismo monárquico, seria melhor viver numa sociedade democrática regida pelo direito. A responsabilidade individual teria a qualidade de efetuar a promoção de uma sociedade próspera. Neste instante, pelo contrário, a premissa é de que é necessário haver pobres, para que se submetam a qualquer regime de trabalho por baixos salários. E o direito, o Estado e a democracia, são vistos como obstáculos que devem ser removidos, para que os bilionários que entronizaram Trump na Casa Branca, fiquem mais e mais ricos do que já são. Essa conjuntura e essa sucessão de fatos deixam conspícua a conclusão de que o capitalismo é desfalcado de uma teoria coerente e forte o bastante que contemple universalidade e permanência. O capitalismo é mutante. Sempre que a regra do jogo precisa ser mudada, ela é, deveras, mudada. Quando os países de centro, como aqueles da Europa Ocidental, Estados Unidos e outros que não citarei, tinham a seu favor o descompasso da alta tecnologia em contraposição às commodities dos países periféricos, tudo estava entregue à mão invisível do mercado. Com a reviravolta tecnológica, sobretudo da Ásia, mudou-se a fala e a conduta. Chegado até aqui, o amável leitor se dá conta do sentido do título deste artigo: os estadunidenses são capitalistas, mas iliberais. Eles não têm discurso, ou o seu discurso é fluido como vapor d’água. Eles vivem um pragmatismo que lhes permite mudar a cada instante, segundo seu interesse mais imediato. É claro que uma conduta como essa não se coaduna com uma teoria forte, haja vista que qualquer sistema tem como preocupação varrer da arena pensamental essas contradições, que eles cometem a cada fração inferior a um minuto. Por tudo isso, os ianques são capitalistas iliberais. Por outro lado, não se vislumbra a possibilidade de ser um socialista antissocial. Ou você é socialista ou não é. Isto porque o socialismo, antes de ser a tentativa da consecução de uma sociedade racional, organizada, justa e solidária, é uma teoria. E nenhum teórico sério consegue ficar com a consciência tranquila, ora dizendo, ora desdizendo, ora… Enfim, não há liberal, por mais genial e idôneo que seja, – aliás, além de Ronald Dworkin, não me vem à cabeça um segundo exemplo, – que possa domesticar essa fera contraditória, bipolar, aporética e ensandecida, chamada “capitalismo”. Foi com essa mesma ignorância poderosa que os romanos conquistaram militarmente os sábios gregos. É, de fato, uma pena. Teoria é luz!